terça-feira, 14 de março de 2017

MONSENHOR GUILHERME LANDELL DE MOURA

MONSENHOR GUILHERME LANDELL DE MOURA
Por: IVAN DORNELES RODRIGUES - PY3IDR
OSCIP - Padre Landell de Moura

GUILHERME LANDELL DE MOURA nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a 17 de junho de 1863. Foi batizado a 24 de novembro de 1863, na Igreja Matriz de Nossa Senhora Madre de Deus, sendo seu padrinho o Cônego Vicente Ferreira da Costa Pinheiro (Certidão de Batismo - Catedral - 1863 - Livro nº 16 - Folha 177). Guilherme Landell de Moura era o sexto de quatorze irmãos, sendo seus pais o Sr. Ignácio José Ferreira de Moura e Sara Marianna Landell de Moura, ambos descendentes de tradicionais famílias rio-grandenses, com ascendência portuguesa, por parte paterna e escocesa, pelo lado materno. Seu avô materno era o médico escocês Robert Landell, diplomado na Universidade de Oxford, Inglaterra.
Guilherme Landell de Moura e seu irmão Roberto seguiram para Roma, onde ambos matricularam-se, a 22 de março de 1878, no Pontifício Colégio Pio Latino-Americano para cursar Teologia, com o objetivo de se tornarem sacerdotes.
Guilherme foi uma pessoa atuante na cidade paulista do Espírito Santo do Pinhal, onde tomou posse da paróquia da cidade em 1906.
Padre Guilherme Landell de Moura residia num imponente chalé com um belo jardim com chafariz que ficava na Rua José Bernardes nº 34, esquina com a Praça da Matriz.
Guilherme Landell de Moura era Doutor em Direito Canônico.
Em 30 de Junho de 1907 houve uma grande manifestação popular ao padre Guilherme Landell de Moura, mais tarde monsenhor, sendo colocado seu retrato na sacristia da igreja Matriz.
Em 1908 recebeu a visita do irmão também padre, Roberto Landell de Moura, do Rio Grande do Sul. Era ele um cientista que fez grandes descobertas, entre elas o Transmissor de Ondas (Wave-Transmitter - Patente nº 771.917), o Telefone sem Fio (Wireless Telephone - Patente nº 775.337) e o Telégrafo sem fio (Wireless Telegraph - Patente nº 775.846), patenteados nos EUA em 1904.
Em 1914, o Padre Guilherme Landell de Moura recebe, com grandes festividades, de sua Santidade o Papa Pio X o título de Monsenhor.
Recebe também o terreno da casa, presente do Cel. Antonio José Villas Boas, que provavelmente também ajudou a construir o chalé, o qual foi inaugurado em 1915.
No livro Divino Espírito Santo e Nossa Senhora das Dores de Pinhal, escrito por Roberto Vasconcellos Martins, páginas 503 a 505, consta que o Padre Guilherme Landell de Moura permaneceu como vigário na cidade durante o período de 1906 a 1924.
Era muito respeitado pelos cidadãos da cidade e na Revolução de 1924 liderou a tropa revolucionária.
A revolução de 1924, encabeçada pelo General Isidoro Dias Lopes, teve ampla repercussão neste município, tendo sido tomada a cadeia pública local pelos revoltosos, chefiados neste setor pelo Tenente João Cabanas que, segundo voz corrente, teve o apoio do Monsenhor Guilherme Landell de Moura, ex-vigário da paróquia. Era o dia 26 de agosto de 1924. Não resta dúvida, porém, que o antigo pároco acompanhou-o nessa diligência, armado militarmente. Praticaram-se algumas tropelias; soltaram os presos da Cadeia; houve várias pessoas na localidade, algumas de representação social, outras sem imputabilidade, que se manifestaram a favor da rebelião, confraternizando-se com os rebeldes, mas sem praticar atos materiais positivos de co-participação no delito.         
Acompanhando essa tropa revoltosa, que havia se assenhoreado militarmente da cidade, viera o Padre Guilherme Landell de Moura, antigo vigário da paróquia e eclesiástico dotado de grande cultura e saber, altamente versado em teologia, matéria na qual se doutorara.
A 12 de julho de 1924, Pedro de Alcantara Tocci e o Tenente Joaquim de Oliveira Neves estiveram em Espírito Santo do Pinhal, em propaganda subversiva, oferecendo o governo ao Dr. Almeida Vergueiro, que o recusou.
Padre Guilherme assumiu a direção da cidade, destituindo todas as autoridades constituídas do município, suprimindo o exercício de todas as liberdades públicas, praticando inúmeros atos de domínio político ou temporal, proclamando-se acintosamente governador militar da cidade. Esta arbitrária e discricionária chefia do Padre Guilherme Landell de Moura, apenas prevaleceu pelo breve intervalo de tempo de três dias, no interregno compreendido entre o sábado e a segunda-feira; porém durante esses turvos e anômalos dias, o singular sacerdote que, diga de passagem, possuía uma linda fazenda de café no município, decretara a lei marcial, agravando ainda mais os males já decorrentes do estado de sítio. Essa drástica e violenta medida foi publicada em boletim, que então fizera publicar e circular pela cidade. A linguagem em que é vazado esse curioso documento histórico é bem expressiva, típica, revelando com impressionante fidelidade o conturbado estado de espírito e as criminosas intenções que animavam aqueles bandos de homens fora-da-lei.
O ex-monsenhor Guilherme Landell de Moura, investido no cargo de governador revolucionário civil, em cuja qualidade publicou boletins, chegando à cidade em companhia dos rebeldes, quando vieram ocupá-la, tendo à frente o Tenente João Cabanas, fez promulgar leis de exceção, como o toque de recolher após a hora do comércio, e a proibição de ajuntamentos públicos. Guilherme Landell de Moura andava armado de fuzil e revólver, prestando serviços inerentes aos cargos que aceitou e terminou por acompanhar os rebeldes na sua fuga.
Para situarmos esses acontecimentos, seria importante relembrarmos alguns tópicos sobre a Revolução de 1924, muito pouco conhecida e assim refrescarmos a nossa memória.
Padre Guilherme Landell de Moura era companheiro do advogado e revolucionário João Fina Sobrinho, que era membro da Junta Revolucionária de Rio Claro. João Fina Sobrinho e seu irmão Manuel Fina, conduzido pelo general revolucionário Miguel Costa, comandante da Força Pública de São Paulo, estiveram no front da luta armada, engajado na Coluna Paulista.
Na capital de São Paulo, após sofrer bombardeio dos legalistas, deslocaram-se pelo interior do Estado, entrando no Paraná, até atingir Guaíra e Porto Mendes, para logo depois, perto de Foz do Iguaçu, se juntar às tropas de Luiz Carlos Prestes.
Prestes procedia de Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga, Rio Grande do Sul, na companhia do rio-clarense Antonio de Siqueira Campos, que comandava o Terceiro Destacamento. Assim deu início à formação da emblemática Coluna Prestes, que iria perfazer uma marcha de quase vinte e cinco mil quilômetros, de 1925 a 1927, zigue-zagueando por vários estados do Brasil, adentrando até os territórios vizinhos do Paraguai, do Uruguai, da Argentina e da Bolívia. Todavia, com a retomada do poder pelas forças legalistas do Governo da República, do presidente Artur Bernardes, João Fina Sobrinho, integrante da Junta Revolucionária governante da cidade e partícipe ativo da Revolução Paulista de 5 de julho de 1924, teve que partir para o seu exílio, na Argentina, via Paraguai, conjuntamente com seu amigo e jornalista José dos Santos Ferro.
João Fina Sobrinho permaneceu em Buenos Aires, na Calle Morena, perto do reduto de Siqueira Campos e João Alberto - frequentado por Luiz Carlos Prestes e Miguel Costa.
José dos Santos Ferro conseguiu voltar mais cedo ao Brasil, aportando em Santos, para onde a sua família, saindo de Rio Claro, na época, mudou o seu domicílio.
Entretanto, João Fina Sobrinho, democrata progressista de esquerda, quando tentava retornar a São Paulo, no início de 1925, foi preso pelos legalistas e encarcerado nas celas da Imigração. Ficou preso em prédio da Avenida Tiradentes, bairro da Luz, na capital de São Paulo, de onde só saiu em 1926, graças à defesa, que ele mesmo patrocinou, para si próprio e para todo o seu grupo de companheiros revolucionários, perante o douto Juiz Federal Washington Osório de Oliveira.
JUSTIÇA - A REVOLTA MILITAR EM SÃO PAULO
A tese de defesa desclassificatória do preso e advogado João Fina Sobrinho foi acolhida e vem mencionada no livro “Justiça - A revolta militar em São Paulo”, do ilustre mandatário dos Revolucionários Paulistas, José Carlos de Macedo Soares, Ed. Paul Dupont, Paris, 1925, páginas 450 e sgts. Conforme referências dessa obra, João Fina defendeu a si próprio (fls. 18, volume 139) e também aos seus companheiros da Junta Revolucionária Governativa de Rio Claro de 1924, sendo: Brasílio Gonçalves da Rocha (fls. 123, do volume 135), Octávio Moreira Guimarães (fls. 76, volume 123), Eduardo de Almeida Prado (fls. 113, volume 122), além de outros conterrâneos rio-clarenses, como, Francisco Salomão (fls. 48, volume 123) e Romulo Antonelli (fls. 58, volume 128). Defendeu ainda, vários outros companheiros, dentre os quais Monsenhor Guilherme Landell de Moura, sacerdote de Espírito Santo do Pinhal-SP (fls. 128, volume 138), com quem, por coincidência, durante o seu exílio na Argentina, João Fina Sobrinho fizera amizade. E por fim, ainda realizou a defesa do capitão Octávio Garcia Feijó (fls. 31, volume 136), de quem posteriormente se tornaria compadre.
Monsenhor Dr. Guilherme Landell de Moura foi defendido pelos curadores nomeados (fls. 128, volume 138). Alegaram tratar-se de um sacerdote virtuoso e cientista que só aceitou o encargo de administrar a cidade paulista de Espírito Santo do Pinhal durante a revolta, com a intenção de servir à população. Solicitado, seguiu com os revoltosos, apenas para lhes prestar assistência espiritual, tendo concorrido com seu prestígio moral apenas para evitar excessos condenáveis. As provas documentais contra este acusado não tiveram autenticidade e nada se provou no sumário que autorizasse a pronúncia como co-autor (Laudo vol. 146, fls. 63, nº 200).
Este processo foi movido pela Justiça Federal contra os elementos envolvidos na Revolução de 1924. Trata-se de uma peça da Justiça Federal, que, por ocasião da anistia concedida após a Revolução de 1930, foi arquivada na 1ª Vara da Justiça Federal de São Paulo (27.10.1930). Em 1937 essa instituição foi extinta ficando a documentação de posse da Justiça do Estado de São Paulo. Encontra-se atualmente no Arquivo do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
O Processo, no seu todo, inclui tanto a parte policial dos inquéritos, como a parte jurídica propriamente dita. São 170 volumes, num total de 18715 folhas. Contém 5676 documentos, 170 fotografias, 2217 declarações e 1693 depoimentos. Cada volume, classificado por assunto, tem no seu final: um relatório a respeito do conteúdo, um sumário dos fatos principais e das pessoas envolvidas, em ordem decrescente de importância da atuação e, finalmente, um índice remissivo.
O Padre Guilherme Landell de Moura talvez tenha sido a mais extraordinária e romanesca figura de várias, que participaram do movimento revolucionário, em Espírito Santo do Pinhal, durante o ano de 1924. Personagem estranha recortada, com toques de tragédia, nas páginas da história da civilização pinhalense.
A seu respeito eis o depoimento feito pelo seu esclarecido opositor político Candido Mota Filho:
            Li a Decadência do Ocidente, na tradução de Garcia Morente, em 1924, entre as agitações e preocupações de uma temporada revolucionária.
            A cidade de São Paulo tinha sido ocupada pelas tropas rebeldes do General Isidoro Dias Lopes. Ameaçado de prisão e com minha casa situada em plena zona de combate, procurei refúgio na estação de Águas da Prata. Fui preso, contudo, pelos revolucionários, que me conduziram no trem da morte, do então Tenente João Cabanas.
            Essa agitação revolucionária, essa visão da luta, como um prisioneiro num trem revolucionário a correr, noite adentro, no afã dos rebeldes ocuparem cidades do interior paulista, parecia como ilustração expressiva da época em que vivíamos.
            A obra de Spengler, eu a deixara no Hotel e, sob a impressão de sua leitura, os quadros, que via, parecia demasiadamente estreitos, para serem incluídos, como argumentos, em favor de uma crise universal. Eram eles, muito mais, pelos seus processos e seus motivos, um aspecto endêmico do mal político sul-americano.
            Durante a viagem travei conhecimento com um padre, que parecia ter saído de um romance de Grahan Greene. Chamava-se Padre Guilherme Landell de Moura, uma figura exótica que fazia parte do comando revolucionário. Guardava certa imponência, no conflito de sua indumentária; chapéu de feltro, de abas largas e cartucheira e revólver por sobre a batina empoeirada!
            Mostrava-se um dos mais exaltados e achava que a tolerância política é tão mortal quanto a religiosa. Puxamos conversa. Pensava eu conseguir, por seu intermédio, desembarque na primeira estação.
            Vi, de ponto, que essa tentativa seria em pura perda. Era o Padre Guilherme Landell de Moura, um político empolgado pelo movimento revolucionário e me via como um inimigo. E foi desde logo dizendo: — Que pena moço, estar você ao lado da reação. Fico até triste… A mocidade de hoje perdeu a capacidade de luta!
            E para impedir qualquer atitude minha, mudou de assunto, me dizendo: — Leio seus artigos no Correio Paulistano. E acho suas aspirações renovadoras meramente teóricas. E a prova está na sua presença ao lado do Governo e, seus artigos, num jornal conservador.!
            Era sagaz e malicioso, sem a serenidade que a batina lhe devia aconselhar. Porém, tinha suas leituras e me informaram que, apesar da sua veia política extremada, era caridoso e bom. Naquela hora não era realmente um padre. Quando fui solto, noite alta, ele, ao despedir-me, sorriu com certa tristeza, como quem já soubesse das noticias sobre a má sorte da revolução. Não disse palavra. Baixou o chapéu sobre a testa, acomodou-se para cochilar, entregando-se ao próprio destino.
            Nunca mais o vi. Soube, depois, que morreu num desastre de automóvel.
            Ao reabrir o primeiro volume de Spengler, algum tempo depois, encontrei um cartão seu datado de Mogi Mirim. E comecei a pensar no perigo das grandes generalizações e na força oculta e poderosa dos acontecimentos sem proteção. O que podia haver (e haveria por certo), entre a ação desse padre e as grandes formas orgânicas da historia que animavam as profecias de Spengler? (cfr Notas de Um Constante Leitor, Liv. Martins Editora, São Paulo 1960, ps 85 usque 87).
            Como o fim previsível da revolta paulista de 1924 foi a vitória dos governistas, na cidade de Espírito Santo do Pinhal, houve como consequência, a deposição do então governador Guilherme Landell de Moura.
Acabrunhado com a derrota, o ex-sacerdote e ex-governador, segundo a narrativa da freira Irmã Germana de Souza Pinto, bateu o pó da cidade de suas roupas, dizendo que daqui nada queria levar e que nunca mais voltaria.
Mas como a vida nos reserva surpresas imponderáveis, o carro do ex-monsenhor desgovernou-se e caiu do alto do pontilhão que existia no caminho para Mogi Guaçu. Teve ele as duas pernas quebradas e voltou para Espírito Santo do Pinhal para ser socorrido. Muito ferido, veio a falecer, sendo enterrado no cemitério da cidade.
Monsenhor Guilherme Landell de Moura faleceu a 24 de agosto de 1928, em consequência do desastre de automóvel.
MEMORIAL LANDELL DE MOURA

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