sexta-feira, 13 de novembro de 2015

50 ANOS DA RÁDIO GUAÍBA: HOMERO CARLOS SIMON



50 ANOS DA RÁDIO GUAÍBA: HOMERO CARLOS SIMON
Era a velha Guaíba, aquela dos primeiros anos de um rádio mais sóbrio no Rio Grande do Sul, de um rádio dosando notícias, esporte, música e algumas atrações de auditório e de radioteatro. Era a emissora com um som diferenciado, mais claro, mais nítido, a do engenheiro Homero Carlos Simon. Por Luiz Artur Ferraretto
Desde 1953, quatro anos antes, portanto, da inauguração da estação ligada aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, ele vinha planejando e orientando a instalação dos transmissores colocados na ilha da Pintada de forma a aproveitar, para melhorar as irradiações, a conformação geográfica do local, o espelho d’água formado pelo lago Guaíba, na época ainda chamado de rio.

Nacionalista militante, o diretor técnico da emissora adquirira equipamentos e componentes eletrônicos em sua grande maioria fabricados no Brasil, que iam sendo alterados, ajustados e remontados sob a sua supervisão, obrigando, por vezes, um trabalho redobrado, como ele mesmo lembraria anos depois, em depoimento a Octavio Augusto Vampré:
– Foi uma das lutas, das mais ingratas, mas ao final vencedora, de quatro anos seguidos, pelos problemas técnicos que tivemos de enfrentar para a instalação de transmissores e torres.
Luta das mais ingratas do homem que começara, em 1942, ainda estudante, como um dos técnicos da Rádio Sociedade Gaúcha. Mesma emissora para qual idealizaria o melhor auditório que Porto Alegre já viu, o do 11º andar do Edifício União, inaugurado no início dos anos 50. Tanta qualidade só podia fazer com que Simon fosse com freqüência consultado por seus colegas nas audácias dos primeiros tempos daquela velha Guaíba. É a ele que Amir Domingues recorreu para identificar os circuitos de radiocomunicação a serem usados na transmissão de dados de todo o estado na cobertura das eleições de 1958, parceria repetida quatro anos depois em nível nacional. É nele que Flávio Alcaraz Gomes vai buscar amparo técnico para esquematizar a recepção dos sinais enviados da Suécia na Copa do Mundo. Tudo naqueles tempos em que falar de Porto Alegre a São Paulo era uma dificuldade quase instransponível em termos de telefonia, que dirá usando ondas eletromagnéticas.
No plano político, o mais importante engenheiro da história do rádio no Rio Grande do Sul era simpatizante do Partido Trabalhista Brasileiro. No governo Brizola, integrou a Comissão Estadual de Energia Elétrica, responsável pela estatização da subsidiária gaúcha da The Electric Bond and Share Company, levada a cabo em 13 de maio de 1959. No início da década seguinte, preside o Conselho Estadual de Comunicações, órgão por onde passa a encampação, em 16 de fevereiro de 1962, das instalações da Companhia Telefônica Nacional, controlada pela International Telegraph and Telephone Company. É este engenheiro competente afinado ideologicamente com o trabalhismo o responsável técnico pela formação da Rede da Legalidade, em agosto e setembro de 1961, porta-voz radiofônico da mobilização popular que garante a posse de João Goulart.
De Homero Carlos Simon, pode-se ainda destacar o caráter visionário, de alguém que sabia como poucos identificar o potencial de novas tecnologias. Em 4 de outubro de 1957, por exemplo, a Guaíba, em um feito tecnológico para a época, capta o sinal do Sputnik, o primeiro satélite artificial da história, lançado horas antes pela União Soviética. A transmissão daquele bip-bip marcava uma audácia técnica do engenheiro. Vinte anos depois, como registra depoimento de Simon existente no acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, ele integrou um grupo de pesquisa com uma proposta muito à frente de sua época. Queria conectar a capital à cidade de Venâncio Aires, em um projeto pioneiro de TV a cabo, os sinais chegando até lá por microondas:
– Levaríamos todos os canais de Porto Alegre, de televisão, de entretenimento, os convencionais, e lá distribuiríamos à população. E, ao mesmo tempo, também implementaríamos três canais destinados à educação: um canal que operaria permanentemente com material de nível primário; de nível secundário em outro canal; e de nível superior e de educação continuada no terceiro canal.
Como se sabe, a TV a cabo só entraria com força no mercado quase 20 anos depois. Daí, a gente ficar imaginado quantos teriam usufruído em termos de lazer e de educação daquele projeto, mais uma audácia do engenheiro Homero Carlos Simon, aquele, o da velha Guaíba. - See more at: http://www.carosouvintes.org.br/50-anos-da-radio-guaiba-homero-carlos-simon/#sthash.748sZsWp.dpuf

Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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