segunda-feira, 14 de julho de 2014

História e Sociologia. Injustiças e más interpretações na invenção das comunicações

História e Sociologia. Injustiças e más interpretações na invenção das comunicações
 Por Daltro Souza D´Arisbo
Em janeiro de 1861, quando Roberto Landell de Moura nasceu, Porto Alegre iniciava o serviço de fornecimento de água potável. Até então os “pipeiros” coletavam água das fontes públicas e a vendiam de porta em porta.
Na Europa, passadas as revoluções liberais e as unificações Italiana e Alemã, a Primeira e Segunda Revoluções Industriais consolidaram a expansão nas ciências e nas artes, trouxeram o fim de uma época, alteraram comportamentos e abalaram mitos.
O cinema, o avião e o telégrafo sem fios reduziram tempo e espaço. A produção em massa de bens de consumo, o mercado do aço, dos derivados de petróleo e do motor à combustão interna, bem como o fornecimento de energia elétrica a longas distâncias, impuseram um nouveau style, modificando o modus vivendi europeu e norte-americano.
Entretanto, aquelas modificações radicais não entraram com velocidade no Império do Brasil. O distanciamento físico e intelectual do país àqueles outros do Norte cooperava em sinergia com o uso da mão-de-obra escrava. Em outras palavras, a sociedade nacional dominante tornava-se escrava de si mesma, subserviente ao pensamento científico produzido lá fora.
Grande parte deste enorme crescimento técnico ocorrido na segunda metade do século XIX deve-se às pesquisas sobre a eletricidade e ondas eletromagnéticas.
Em 1856 o italiano Antonio Meucci (1808-1889) inventou o telefone com fios. Entretanto, ainda hoje ouvimos pessoas cultas atribuírem esta invenção a Graham Bell. Com dificuldades financeiras, Meucci apenas pagou a patente provisória da invenção, vendendo a sua criação para Graham Bell. Mais astuto e menos pobre, Bell patenteou a invenção como sua. O fato de que foi Meucci o criador do telefone é tão notório que foi aceito até pelo Congresso Norte-Americano (Resolução 269 de 11. 06. 2002) ! 
Quanto a Nicola Tesla foi bem pior.  O gênio, nascido na Croácia quando esta era uma posse do Império Austríaco dos Habsburgos, nos legou a transmissão de sinais à distância, quando monitorou por um “controle remoto” uma miniatura de barco. Porém, dentre tantos legados, o maior foi a transmissão de energia elétrica a grandes distâncias através da corrente alternada. Com esta vitória na ciência e na tecnologia, ele derrotou a transmissão da eletricidade por corrente contínua e obteve uma histórica desforra contra uma injustiça que Thomas Edison lhe causara. Entretanto, seus demais esforços foram esquecidos. Marconi recebeu o glamour internacional e o Nobel de Física em 1909. Esta última comenda deixou Tesla furioso. Ele acabou só e esquecido, num apartamento de hotel em Nova Iorque. Apenas em 1943, a Suprema Corte dos USA deu-lhe maior crédito, infelizmente após a sua morte. 
Tais controvérsias e erros históricos não pouparam Landell de Moura, o maior cientista brasileiro. Apesar da criação do rádio ser popularmente dada a Marconi, em 1894, portanto um ano antes de Marconi, Landell apresentou publicamente seu transmissor de ondas. Inobstante ter o italiano a glória de ser o primeiro a transmitir sinais de telegrafia sem o uso de fios, Landell foi o pioneiro na transmissão da voz humana wireless. Isto ocorreu várias vezes entre 1989 e 1900. Alerte-se em boa hora que o canadense Reginald Fessenden só transmitiu a voz sem o uso de fios em dezembro de 1900 e Marconi em 1914.
Forçado a abandonar a carreira científica por ser padre, Landell não obteve a menor acolhida de seus inventos no Brasil ou fora dele. Mais do que isso, foi considerado pelo governo e população nacionais como herege, impostor, louco, bruxo e padre renegado, por seus experimentos envolvendo as transmissões de rádio. Também a comunidade científica internacional não deu reconhecimento ao seu pioneirismo e patentes porque ele não nascera ou trabalhara nos Estados Unidos ou na Europa.
Nos anos seguintes ao início do século XX, começa a industrialização de receptores de rádio em massa, bem como inovações em seus circuitos. O maior criador de circuitos de Rádio, Edwin Armstrong, inventou o circuito Regenerativo em 1912. Em 1918, Armstrong registrou o super-heteródino com aperfeiçoamentos e, em 1920, ele vendeu por pouco os direitos do super-heteródino para a RCA, o que ocasionou um fabuloso monopólio: todos os fabricantes de rádios tinham necessidade de pagar direitos a Radio Corporation of America para fabricarem receptores com o novo sistema, considerado ideal até hoje. Lee de Forest, criador da primeira válvula de Rádio manteve uma batalha jurídica contra Armstrong sobre a invenção do Regenerativo, até que, em 1934, a Suprema Corte dos Estados Unidos deu ganho de causa a Forest, contrariando toda a comunidade científica. Armstrong suicidou-se em 1954.
A transmissão de sinais sem fio, desde o receptor de rádio aos celulares, computadores e satélites teve uma saga baseada tanto na ciência quanto no mau uso dos inventos alheios, abundante em laurear quem dela melhor se apropriou, malgrado aqueles que realmente criaram os mecanismos para a sua consecução. Talvez acontecimentos do século passado, talvez uma história que perdure.

                                                           Daltro Souza D´Arisbo é fundador e mantenedor do Museu do Rádio do Rio Grande do Sul, situado na Rua Dr. Oscar Bittencourt, 2 ap.202, bairro Menino Deus, Porto Alegre, site > www.museudoradio.com .
Seu acervo de receptores à válvula hoje é composto de mais de 120 rádios, todos “falantes”, restaurados com a originalidade de sua fabricação. São peças catalogadas e com passado datando entre os anos de 1928 a 1960.
Matéria enviada por: IVAN DORNELES RODRIGUES - PY3IDR

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