quarta-feira, 21 de agosto de 2013

COESOR

Caros amigos e colegas;
Hoje lembrei falar nos primeiros transmissores de ondas. Lembram, usavam o sistema por centelhamento para a transmissão de ondas eletromagnéticas. Mas os receptores como eram?
O nosso ilustre inventor brasileiro, Roberto Landell de Moura, patenteou um transmissor de ondas em 1904, nos EUA. E era por centelhamento. Até aí tudo bem. E a recepção, como se fazia? Pois é, os receptores eram os coesores da época. Lembram que não existia ainda a galena. Logo, Landell e os contemporâneos inventores usavam os famosos coesores para a recepção. Mas como eram esses receptores?  
Transmissores a centelha difundem, essencialmente, estática, que se espalha entre as frequências, e quaisquer dos transmissores nas mesmas cercanias interferem uns com os outros, tornando a comunicação virtualmente ininteligível. O transmissor de ondas do Pe. Landell era bem assim. Lembram que o pioneirismo do nosso ilustre cientista-inventor se deu com o seu Telefone sem fio, correto? Transmissão pela luz e por ondas eletromagnéticas. Este aparelho na verdade era um transceptor, porque transmitia e recebia. Bom, este assunto fica para outro dia, porque hoje gostaria de falar sobre os coesores.
COESOR
Os receptores da época pioneira das transmissões sem fio eram os famosos coesores. A palavra coesor não significa quase nada para ninguém, e assim é que deve ser, já que é virtualmente sem sentido mesmo. Quando Hertz detectou pela primeira vez as ondas de rádio, isso ocorreu pela mera observação de fagulhas que saltavam entre dois fios. Um receptor a centelha não é particularmente sensível, e assim, durante os anos seguintes, os cientistas esforçaram-se consideravelmente para a criação de receptores melhores. O resultado foi o coesor, que era pouco mais do que um tubo de vidro cheio de pequenas partículas, tipicamente limalha de ferro. Quando um sinal de rádio chegava, as partículas tendiam a agrupar-se; esta ação baixava drasticamente a resistência elétrica do circuito, permitindo o fluxo de uma corrente vinda de uma bateria adequadamente instalada. A corrente, por sua vez, podia ser medida por um medidor ou causar um estalido em um receptor telefônico.
Esses microfones rústicos empregados por David Hughes em sua detecção pré-hertz das ondas de rádio eram essencialmente coesores, já que dependiam de contatos frouxos que entravam em colisão pela passagem de uma onda de rádio, e a semelhança com o telefone de Reis também não pode ser ignorada. O princípio básico, porém, parece ter sido descoberto pelo sueco P. S. Monk, ainda em 1835, e em 1884 um físico italiano, Temistocle Calzecchi Onesti, inventou um coesor ao qual ligou um telefone. Tais reivindicações, é claro, perturbam aqueles que apoiam Edouard Branly, que geralmente recebe o crédito pela invenção da coisa em 1890, mas que a chamou de “condutor de rádio”. Receptores moleculares e o Fritter alemão também foram propostos, o que confirma que coesor nada significa, porque não há razão para significar alguma coisa. O coesor de Lodge referia-se à tendência de agrupamento da limalha, e o termo também pegou. Infelizmente, a principal dificuldade era fazer com que a limalha se separasse, depois de se tornar coesa, e muito trabalho foi dedicado à criação de coesores que incluíssem batedores do tipo existente em despertadores como parte do circuito, para separação da limalha.
Marconi, com seus conhecimentos técnicos limitados, queria apenas transformar o rádio em um sucesso comercial. Ele buscava ajuda técnica de outros e tomava para sí quaisquer propriedades intelectuais que considerasse necessárias para este fim. Nisto vemos uma certa falta de escrúpulos, que se manifestou repetidas vezes ao lidar com seus concorrentes, como se tornará claro em outro pequeno episódio que tende a ser ignorado pelos biógrafos.
O escândalo do coesor da Marinha italiana tem muito em comum com a questão Schleswig-Holstein, cujas complicações lendárias levaram Lorde Palmerston a comentar que apenas três pessoas a haviam compreendido: o Príncipe Albert, já morto; um professor que elouquecera e o próprio Palmerston, que já a esquecera. Tudo começou logo depois do retorno de Marconi da Terra Nova e da experiência transatlântica de 1901, que deixou o mundo perplexo. É preciso entender que, naquela época, os cientistas sentiram-se chocados ao saberem que ondas de rádio podiam ser transmitidas além do horizonte. Contudo, Landell e Marconi acreditavam que um sinal de rádio podia cruzar um oceano, mas Marconi foi quem fez a experiência épica que provou que todos estavam errados. Para o teste, sua empresa construiu um transmissor a centelha de alta potência em Poldhu, na Cornualha. Ninguém nega que Ambrose Fleming, que depois inventou o tubo à vácuo e prestava consultoria para a empresa, criou o transmissor, mas em seu retorno Marconi enfrentou acusações de ter roubado o projeto para o transmissor.
No verão de 1901, o amigo de infância de Marconi, o Marquês Luigi Solari, viera a Londres para pedir emprestado alguns dos aparelhos sintonizadores para testes pela Maria italiana, na qual Solari servia como tenente. Em troca do empréstimo, Solari presenteou Marconi com um coesor recém-inventado, que diferentemente daqueles cheios de limalha de ferro, consistia de um tubo contendo uma gota de mercúrio entre dois pinos de metal (uma vantagem deste dispositivo desfazia a coesão automaticamente). Quando Marconi indagou sobre as origens do aparelho, Solari disse-lhe apenas que fora desenvolvido por vários membros da Marinha e, portanto, deveria ser conhecido como o coesor da Marianha italiana. Marconi prontamente depositou a patente em seu próprio nome. A coisa toda poderia ter sido esquecida, mas esse coesor tornou-se o componente essencial do receptor que “pescou” o S transatlântico do éter naquele dia imortal de dezembro.
Os ventos da guerra começaram a soprar em 1902, quando o professor Angelo Banti publicou um artigo em seu periódico L’Elettricista, afirmando que o coesor de mercúrio havia sido inventado por um sinalizador humilde da Marinha, chamado Paolo Castelli.  O artigo causou tal furor que Banti viu-se forçado a fornecer mais provas – o que fez, na forma de relatórios vindos diretamente da Marinha italiana. Posteriormente, à medida que Banti  obtinha mais documentos, começou a aparecer que Solari e Castelli haviam desenvolvido seus coesores independentemente. Banti redigiu uma “retratação”, que terminou dizendo que ele “não havia publicado nenhuma falsidade”.
Embora tudo isso pareça insuportavelmente primitivo hoje, o coesor transformou uma curiosidade de laboratório em uma possibilidade comercial, e falar sobre os primeiros rádios sem discutirmos os coesores é como falar sobre a televisão sem mencionarmos os tubos.
Será que hoje consegui fazer com que os senhores lembracem dos pioneiros receptores? Creio que é bem mais prático mostrar como funcionavam.
Por hoje fico por aqui.
Forte abraço.
Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR

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